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“A obra é declaradamente desumana”

Gestão Covas (PSDB) concreta paralelepípedos na base de viaduto no Tatuapé para afastar moradores em situação de rua

Não é de hoje que engenheiros da Prefeitura realizam intervenções nos baixos de viadutos para evitar que essas áreas sejam ocupadas por moradores em situação de rua ou utilizadas por catadores de materiais recicláveis.

Na semana passada, funcionários de uma empesa contratada pela Subprefeitura Mooca concluíram a concretagem de paralelepípedos na base do Viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida, na Avenida Salim Farah Maluf, no Tatuapé.

As pedras foram fixadas caprichosamente de forma pontiagudas com o propósito de evitar a presença dos moradores em situação de rua.    

Essa arquitetura anti moradores de rua também é encontrada em outros viadutos. Ela faz parte das ações higienistas da gestão Bruno Covas (PSDB). Em vez de fortalecer uma política pública de acolhimento dos moradores, prefere realizar obras para expulsá-los de espaços públicos.

Na mesma região, o Viaduto Antônio de Paiva Monteiro, na Avenida Alcântara Machado, também sofreu igual intervenção no final do ano passado. A obra afasta as pessoas do local, já que não é possível nem caminhar com segurança e muito menos se abrigar.

Nesta terça-feira, dia 2, o padre Júlio Lancellotti esteve no Viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida. Munido de marreta, removeu pedras concretadas pela Prefeitura.

A obra da Prefeitura sofreu duras criticada nas redes sociais, inclusive pelo padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Moradores em situação de rua que acompanharam o padre Júlio questionaram com ele o valor da obra e o custo da remoção. Diante da repercussão, a Prefeitura resolveu removê-las.

A gestão Covas informou em nota, que “desconhece a ação” e que vai abrir sindicância para apurar o ocorrido.   

Em declaração ao jornal Folha de S. Paulo, a arquiteta urbanista Paula Freire Santoro, professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), da USP, e coordenadora do LabCidade, não poupa críticas. “A obra é declaradamente desumana ao criar uma ‘nova arquitetura do genocídio’ da população de rua”, comentou.

E acrescentou para reflexão geral: “Como pode um gestor construir algo feito para machucar, para não deitar, para fazer as pessoas sumirem dali? Isso não diminui o desafio que é acolher essa população nem reduz o número de pessoas nas ruas, mas é bem mais simples do que encarar os problemas sociais”.