Por que o Hospital Sorocabana está abandonado pela Prefeitura?

Com o auditório do Teatro Cacilda Becker, no bairro da Lapa, completamente lotado, o movimento de saúde da zona oeste e os conselheiros gestores, além de moradores daquela região, deram um exemplo de cidadania na audiência pública da Comissão de Saúde da Câmara Municipal realizada em 25 de novembro. Todos estavam lá para saber os motivos que levaram a prefeitura de São Paulo a abandonar um hospital que fazia mais de 20 mil atendimentos por mês

A audiência foi requerida pelo nosso mandato para debater a reabertura do Hospital Sorocabana e a mudança de gestão da UBS Vera Cruz.

A unidade foi entregue recentemente pela gestão Bruno Covas para uma organização social, apesar da grande resistência dos moradores locais.

Administrado desde 1956 pela Associação Beneficente dos Hospitais Sorocabana, o hospital fechou as suas portas em 2010 por problemas financeiros. Logo depois, o governo do estado recuperou a posse da área.

Desde então, existe impasse que se arrasta há anos. Trata-se da transferência da posse do prédio pelo governo do estado para a Prefeitura.

Por isso, foram convidados para audiência representantes das duas esferas, mas apenas o governo estadual compareceu. Com a ausência da Prefeitura, a audiência se transformou num ato de desagravo.

Os moradores reivindicam, com razão, a reabertura do hospital, mas que seja municipalizado e 100% público.

A justificativa, extremamente legítima, é que a Lapa não possui nenhum leito de hospital que hoje atenda pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Sobre a área, o representante da Secretaria Estadual da Saúde, Osmar Mikio, disse que sob o ponto de vista legal, há um decreto de 2016, de concessão por 20 anos, para o município utilizar esse hospital.

Segundo ele, o secretário Municipal da Saúde, Edson Aparecido, porém, pediu a doação da área.

“Este processo da doação definitiva está em tramitação, e não há objeção do governo do estado”, acrescentou.

Diante das informações, fica no ar a dúvida: qual o motivo da Prefeitura não ter assumido a reabertura do hospital após a concessão de 2016?

Causa ainda mais estranhamento o fato de, nesse período, terem sido abertos outros equipamentos municipais de saúde no mesmo local.

A gestão Kassab implantou AMA (Assistência Médica Ambulatorial) em 2012.

Depois, em 2015, na administração Haddad, foi instalado o CER (Centro Especializado de Reabilitação) e o Hora Certa, mas os cinco andares do hospital continuam abandonados.

E na gestão Doria/Covas, apesar de recursos em caixa, não houve avanços. Os cinco outros andares do prédio continuam se deteriorando.

É evidente que a reabertura do hospital envolve custos financeiros.

Em 2016, a reforma do prédio foi estimada em R$ 28 milhões e podendo chegar a R$ 40 milhões incluindo equipamentos. Hoje, o custeio administrativo é estimado em R$ 15 milhões mensais.

Nesses quase dez anos, a reabertura do hospital é repleta de promessas e da falta de entendimentos entre os poderes públicos.

Após a audiência, os presentes saíram com a certeza de que os bons tempos em que o Sorocabana prestava atendimento pelo SUS só voltam com muita luta.

Afinal, cartazes colados no muro até pouco tempo atrás levantavam o questionamento: “Por que um hospital municipal que fazia 20 mil atendimentos por mês com 156 leitos está abandonado pela Prefeitura?”

Ainda estamos buscando essa resposta.

 

 

Esse texto foi publicado originalmente no postal VioMundo: https://bit.ly/2qTl7vr