A barbárie da fome e da justiça com as próprias mãos

Um jovem negro, menor de idade, foi despido, amordaçado e chicoteado. Brasil, 2019. 

Circula pelas redes sociais e noticiários televisivos mais uma cena que revela a barbárie do nosso passado e do nosso presente.

Um garoto negro despido, amarrado e amordaçado é chicoteado por seguranças de um mercado na zona sul da cidade de São Paulo depois de tentar sair do estabelecimento com uma barra de chocolate sem pagar por ela.

A cena lembra aquelas imagens dos livros de história em que os escravos eram chicoteados em praça pública ou na frente de outros homens e mulheres escravizados. A mensagem sempre foi explícita, dar a lição em quem não obedeceu e mostrar aos outros o que acontece com quem desobedece.

A barbárie da escravidão e da desigualdade social que novamente se acirra no país produziu mais uma vez uma cena grotesca que deveria nos indignar a todos. Mas como o rapaz é preto e pobre a indignação é seletiva e muita gente provavelmente nem se pergunta o que levou o rapaz a furtar o chocolate e o que levou os seguranças a agredirem e humilharem.

Certamente, o que levou o rapaz a tentar sair do mercado sem pagar foi a pobreza que se acirra no país. E não se trata aqui justificar crimes. Mas é inegável que o aumento da desigualdade social produz aumento de violência. E é inegável que num país racista são os negros os mais afetados. Basta olhar para os dados do desemprego. De acordo com o IBGE, o desemprego é maior que a média nacional entre pretos e pardos, 16% e 14,5% respectivamente e menor que a média nacional entre os brancos, 10, 2%. No final de 2018, também de acordo com o IBGE um trabalhador branco ganhava 72,5% a mais que um trabalhador negro.

Assim como a desigualdade no Brasil tem cor, os dados da violência também evidenciam o racismo estrutural que faz adoecer nossa sociedade e instituições. De acordo com o Atlas da Violência de 2019, a violência letal contra brancos em 2017 caiu ao passo que entre os negros aumentou. Isto quer dizer que ser negro no Brasil é mais perigoso que ser branco. Em 2017, do total de indivíduos assassinados, 75% eram negros, desses 91,8% são homens e desses 55% são jovens, têm entre 15 e 29 anos.

E o que levou os seguranças a cometerem algo tão atroz foi a certeza de que o papel deles como segurança de um mercado é o de que eles estão autorizados a fazer justiça com as próprias mãos. É a tolerância em relação a violência quando ela é cometida contra um negro ou negra no país. Vamos lembrar do caso do garoto assassinado no Rio de Janeiro por seguranças, o outro agredido por seguranças em Osasco.

Aliás, senhores vereadores, basta a gente dar um Google pra ver a quantidade de histórias de homens e mulheres negros que são agredidos por seguranças em mercados, ou impedidos de entrar ou convidados a se retirarem de estabelecimentos comerciais. Vamos lembrar que essa violência racista também é institucional, vamos lembrar da Claudia (arrastado por um carro da polícia no Rio de Janeiro), da Luana Barbosa (negra lésbica assassinada por PM no interior de São Paulo), Amarildo e tantos outros negros e negras no país vítimas da violência racista seja ela institucional ou não.

Não podemos nos esquecer do papel do discurso da tolerância zero contra a “criminalidade” muito em voga aqui em São Paulo, lá no Rio de Janeiro e mesmo lá em Brasília. Esse discurso que autoriza e legitima justamente o atirar primeiro e perguntar depois e a aqui no Brasil, como muito bem sabemos, todo preto é suspeito até que se prove o contrário. Que o diga Rafael Braga preso em 2013 no centro do Rio de Janeiro, cujo crime foi não ter dinheiro para voltar pra casa, dormir no centro e estar por lá no momento de ato fortemente reprimido. E claro, o outro crime que Rafael cometeu, além de ser pobre, é o de ser negro.

Também não podemos desconsiderar o impacto da flexibilização do porte de arma no Brasil sobretudo para a população negra. O papel dessa mídia sensacionalista que lucra com a violência, que ajuda a espalhar a sensação de insegurança no país, que propaga e defende soluções simplistas como a redução da maioridade penal como forma de lidar com problemas tão complexo que envolvem racismo, desigualdade social e segurança urbana.

Por fim, diante de como todas essas coisas se articulam no Brasil, se o garoto tivesse a “sorte” de ser chicoteado pelos seguranças e fosse entregue para a polícia o que aconteceria com ele? Iria para uma fundação Casa? Ou seria espancado por polícias?

Não podemos mais achar que é normal tudo isso.  Não podemos mais fechar os olhos para o que acontece nas periferias da nossa cidade!