Enchentes não são apenas 'fatalidade divina'

Artigo publicado na Folha de Vila Prudente. Março 2019. 
Não é de hoje que a cidade de São Paulo sofre com as fortes chuvas de verão.  Não é de hoje que os governos culpam São Pedro pelas tragédias provocadas pelas enchentes e pelos deslizamentos de encostas.
Assim como o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, a tragédia não é somente ambiental. Tem o dedo do homem, tem a ganância dos lucros. No caso da Grande São Paulo o caos da noite de 10 de março, que causou 18 mortes, pode ser creditada a omissão ou descaso dos governantes.
Ao examinar, recentemente, o orçamento da Prefeitura, a urbanista Raquel Rolnik demonstrou a falta de prioridade da atual gestão Bruno Covas (PSDB) nas intervenções de combate às enchentes. “Foram simplesmente zerados os investimentos em obras contra enchentes e uma enorme soma foi concentrada em pavimentação de vias em 2018. Parece então que as enchentes não são uma fatalidade divina, mas claros produtos de opções de política urbana”, escreveu em artigo.
Os números da execução orçamentária confirmam. Em 2017 (gestão Doria) e 2018 (Covas) foram gastos um terço do orçado para tal finalidade. De R$ 824 milhões para drenagens, só R$ 279 milhões (38%) foram gastos. Em obras e monitoramento de enchentes, estavam previstos R$ 575 milhões, mas apenas R$ 222 milhões (35%) foram investidos. Mas os recursos com recapeamento de vias foi multiplicado seis vezes no período – saltou de R$ 44 milhões para R$ 293 milhões.
Apesar do prefeito Covas alegar problemas financeiros, nos últimos   dois anos  a arrecadação com impostos cresceu 12,5%. No ano passado, ela superou em R$ 300 milhões a estimativa da gestão.
Também responsável pelos rios da cidade e por obras de drenagem, o papel do governo do Estado no combate às enchentes beira o descasco. Nos quatro anos da gestão Geraldo Alckmin/Márcio França estavam previstos R$ 3,2 bilhões no combate às enchentes. Mas foi investido somente R$ 1,5 bilhão (46%). No ano passado dos R$ 36 milhões orçados para construções de piscinões, foi gasto apenas R$ 1,6 milhão (6%).
Moradores da região de Vila Prudente exercitam sua infinita paciência com projetos que não saem das gavetas. Há seis anos, ainda na gestão Haddad foi anunciado convênio com o governo Alckmin para a construção pelo DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) do piscinão na Avenida Anhaia Mello, precisamente sob o campo de futebol do CEE Arthur Friendereich. Na época do anúncio em 2013, a previsão de entrega do reservatório seria a temporada de chuvas 2014/2015. Decorridos  estes anos, com seguidas enchentes na Anhaia Mello, a última noticia, publicada na Folha Vila Prudente em 27 de abril de 2017, é que o DAEE (órgão do governo do Estado) estava estudando ampliar a capacidade do reservatório que, sem dúvida, contribuiria para aliviar as inundações nesse ponto do bairro.
Aprendemos desde a infância que temporais de verão são dádivas da natureza. A decisão política de investimentos e de prioridades, porém, está na terra, obviamente com os governantes.
Vereadora Juliana Cardoso (PT), membro da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de São Paulo.